Os Melhores Programadores que Conheço Não Sabem se Promover

Tenho um enorme prazer e satisfação de ter contato com os melhores desenvolvedores em língua portuguesa do mundo, através do site Stack Overflow em Português, a quem devo muito pelo reconhecimento e prestígio que me concederam voluntariamente nos últimos 3 anos. Acredito que as grandes mudanças positivas da minha vida nos últimos tempos foi por causa dessa relação de confiança que tenho com a comunidade, e os retornos são muitos: financeiro, social, profissional, pessoal.

Sendo um canal de comunicação para o mundo, mantenho em meu perfil todas as informações importantes que digam quem eu sou, onde estou, no que trabalho, quais são meus grandes projetos e os meios de contato. Isso para mim é o básico. Eu poderia colocar mais informações, mas prefiro ser sucinto e não me delongar no que não interessa. É assim que consigo alunos, contatos profissionais, contratos novos para minha empresa, oportunidades diversas.

No entanto, dividindo espaço com gente tão talentosa e disposta, é engraçado que a timidez e a falta de jeito (somada com um pouco de preguiça, diga-se de passagem) prevalece na hora dessas pessoas fazerem seu próprio cartão de visitas. Não há custos nem sacrifício de destinar algumas poucas linhas para se identificar e dividir com o mundo pelo menos um pouco de si, o mínimo para que outras pessoas possam entrar em contato, por exemplo. Não é raro ver alguns deles reclamando da vida, que ganham mal, que trabalham muito, e assim por diante.

O predominante nas descrições é o seguinte texto:

Aparentemente, este usuário prefere manter um ar de mistério sobre si mesmo.

O que se ganha com o mistério?

Isso na verdade me lembra José Costa, o escritor tímido e miserável de espírito de Budapeste, de Chico Buarque, cujo maior deleite era escrever obras se passando por outras pessoas:

Faltava-me dar prova cabal a Kaspar Krabbe, dizia o Álvaro, de que não iria pôr a perder uma vida honrada, além de um bom negócio, em troca de luzes que jamais almejei. Faltava-me dar mostras de ser ainda o velho José Costa, tão zeloso do próprio nome, que por nada neste mundo abriria mão do anonimato.

Soberbo e orgulhoso do próprio talento, José nunca quis projetar sua estrela porque a fama não lhe interessava. Preferia a prerrogativa de manter o nome incólume de qualquer escrutínio. Dono de uma personalidade estranha e uma excepcional capacidade de síntese, escreveu por encomenda o livro fictício "O Ginógrafo", se passando por Kaspar Krabbe, empresário alemão radicado no Rio de Janeiro. Uma série de caprichos o fez abdicar da própria família e quase o arruinou completamente, muito disso pelo capricho de se manter incógnito.

Recomendo a leitura deste livro sobretudo a todos aqueles que desejam saber o que não fazer em suas carreiras. Esse personagem me foi emblemático porque sua personalidade e seus melindres me irritam em pessoas de carne e osso.

Esse fetiche da identidade protegida até eu tenho, tanto que não uso meu nome de verdade pra tudo. Com mecanismos de indexação tão poderosos como o Google hoje em dia, nem sempre queremos ser associados a tudo aquilo que fazemos na Internet (meu caso), então somente as pessoas que me interessam chegam até mim. De qualquer forma, ainda consigo colocar um tanto de informação que as pessoas que realmente querem falar comigo conseguem sem muita dificuldade, diferentemente do objeto deste meu texto. E, mais importante ainda, conseguem ver minha produção devidamente creditada.

É a mesma coisa que faz o Buckethead, por exemplo. Uma pesquisa no Google sobre ele faz as pessoas acharem o nome dele de verdade, mas no caso dele produz o efeito contrário: as pessoas se interessam mais ainda sobre ele por ele ter uma identidade peculiar. Há várias outras bandas que fazem isso, e a ideia é, sim, vender o peixe, mas protegendo a privacidade e as vidas pessoais de cada um.

Ghost B.C.

Aí vem o detalhe mais importante: esses músicos obtêm um benefício financeiro direto porque são muito bons com o marketing de suas identidades inventadas.

Já os programadores nada ganham com essa discrição toda. Por exemplo, se eu quiser contratar um deles, vou ter um baita trabalho para descobrir os meios de contato, vou ter que ter uma conta específica num site para falar com eles, adentrar um chat bem específico e torcer para que eles estejam lá.

Alguns ainda divulgam LinkedIn e GitHub, que considero que seja o mínimo, mas como empregador interessado em contratá-los, não quero ter que ficar descobrindo as coisas em longas pesquisas. Os programadores precisam supor que meu tempo é finito e não tenho horas para gastar em sondagens, ou lendo código e descobrindo que tipo de sistemas eles já trabalharam.

Vejo muitos programadores reclamando da vida, mas eles mesmos não se ajudam, e é isso que não faz o menor sentido para mim. A autopromoção não toma mais do que 10 minutos do seu tempo por dia e meia dúzia de frases, apenas como uma bússola, uma trilha de pão, um sinal de fumaça, qualquer coisa. Nunca foi tão fácil abrir um canal para novas oportunidades, com tantas ferramentas trabalhando por nós.

O exercício que proponho é você, programador, vestir a pele do seu empregador, entrar no site do Stack Overflow em Português e fingir que vai contratar alguém. Pode escolher linguagem, banco, framework, o que você quiser. Dê uma olhada em uns 15 perfis, e aí se faça a pergunta: é fácil contratar pelo Stack Overflow em Português?

Tendo esta impressão, vá ao seu perfil e coloque toda informação que achar importante que você, no seu perfil de empregador, considera pertinente. Se precisar de ajuda, só deixe um comentário aqui pra mim que posso fazer um feedback a respeito.